Com o fim da temporada de premiações e a ausência da estatueta para “O Agente Secreto” no Oscar, não demorou para surgir um debate recorrente nas redes sociais: afinal, o Oscar importa para o cinema brasileiro? Há quem diga que a obsessão do brasileiro pela premiação seria um problema, um reflexo da necessidade de validação internacional, muitas vezes associado ao chamado “complexo de vira-lata”.

O curioso é que, nesse debate, parece que ninguém nunca está completamente satisfeito. Quando o Brasil não tem filmes indicados, logo surgem críticas sobre a falta de reconhecimento internacional do nosso cinema, o que, de fato, pode indicar problemas estruturais na indústria ou (principalmente) na estratégia de campanha. Mas quando o país consegue presença forte entre os indicados, também aparecem questionamentos sobre a importância de buscar essa validação externa.

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No fim das contas, o Oscar acaba se tornando simultaneamente símbolo de frustração e motivo de crítica, independentemente do resultado. Talvez isso diga menos sobre a premiação em si e mais sobre a relação complexa que o próprio Brasil mantém com o seu cinema.

A relação do público brasileiro com o próprio cinema sempre foi marcada por contrastes. Enquanto produções internacionais dominam salas e imaginário coletivo, o cinema nacional frequentemente precisa disputar atenção dentro do próprio território, não necessariamente por falta de qualidade, mas por questões históricas de distribuição, formação de público e acesso. Esse cenário está diretamente ligado às políticas públicas de fomento, como o Fundo Setorial do Audiovisual e a Lei do Audiovisual, que buscam não apenas financiar filmes, mas estruturar uma indústria capaz de competir em escala e alcance. Ainda assim, o desafio permanece: fazer com que o público brasileiro reconheça valor no seu próprio cinema antes que esse reconhecimento venha de fora.

Nesse contexto, a relação entre validação internacional e interesse nacional se torna evidente. Dados recentes mostram que o engajamento do público cresce significativamente quando um filme brasileiro conquista espaço fora do país.

E isso se conecta diretamente com um ponto muitas vezes ignorado no debate: a importância da campanha e da visibilidade para o desempenho comercial dos filmes. Não apenas no Brasil, mas globalmente, há um padrão claro de crescimento de público após indicações ao Oscar. Produções internacionais frequentemente registram aumentos expressivos de bilheteria e interesse após entrarem na corrida, casos como “La La Land: Cantando Estações“, “Parasita” e “Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo” demonstram como a visibilidade da premiação impulsiona a procura, tanto nas salas de cinema quanto nas plataformas digitais. Esse efeito não se limita aos vencedores: muitas vezes, apenas a indicação já é suficiente para reposicionar o filme no mercado, ampliar sua distribuição e alcançar novos públicos.

No Brasil, o fenômeno se repete. Filmes que passam a figurar na temporada de premiações tendem a ganhar novas janelas de exibição, mais sessões e maior interesse da mídia e do público, como visto recentemente.

O caso de “Ainda Estou Aqui” é emblemático: após indicações e premiações internacionais, o longa registrou aumentos expressivos de audiência, com crescimento de 89% no público após as indicações ao Oscar e picos que chegaram a 174% em semanas impulsionadas pela visibilidade da premiação. Ou seja, mais do que um prêmio, o Oscar funciona como um amplificador de interesse, algo que evidencia tanto a força da premiação quanto a fragilidade da conexão inicial entre o público e o cinema nacional.

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Antes de reduzir esse movimento a uma suposta falta de interesse do brasileiro pelo próprio cinema, talvez seja mais honesto encarar outra questão: em muitos casos, o público simplesmente não teve a oportunidade de conhecer o filme. A ausência de campanhas robustas de marketing, a limitação na distribuição e a pouca presença midiática fazem com que diversas produções nacionais passem despercebidas, não por rejeição, mas por invisibilidade. Quando um filme entra no circuito internacional e ganha destaque em premiações como o Oscar, ele passa a ocupar espaços que antes não tinha: vira pauta, ganha trailers impulsionados, sessões ampliadas e, principalmente, alcance. O interesse que surge nesse momento não é artificial, ele é resultado de exposição.

Nesse sentido, culpar exclusivamente o público brasileiro é simplificar um problema que é estrutural. É curioso, inclusive, observar como o reconhecimento estrangeiro muitas vezes acaba fazendo mais pela circulação e valorização do nosso cinema do que o próprio mercado interno. O “selo internacional” não cria qualidade, ele cria visibilidade. E talvez o incômodo real não esteja no fato de o brasileiro assistir após essa validação, mas no fato de que, sem ela, muitos desses filmes sequer chegam até ele.

Diante disso, talvez o debate precise amadurecer. Desmerecer um filme brasileiro, torcer contra sua trajetória ou reduzi-lo a questões pessoais, seja por antipatia a um ator, a um posicionamento ou qualquer outra pauta, não é apenas raso, é contraproducente para o próprio fortalecimento do cinema nacional. Há um certo paradoxo em criticar a ausência do Brasil no Oscar e, ao mesmo tempo, minimizar quando um filme como “O Agente Secreto” chega lá. Mais do que isso: ignorar ou desprezar o impacto dessa presença é deixar de reconhecer um movimento maior que está em curso.

São justamente esses filmes, que ganham projeção internacional, ampliam sua divulgação e chegam a novos públicos, que ajudam a formar uma base sólida para o futuro do cinema brasileiro. São eles que inspiram novos realizadores, movimentam a indústria e contribuem para um setor que já representa bilhões na economia e gera milhares de empregos diretos e indiretos no país. Enquanto isso, parte do público prefere assistir de fora, com disfarce crítico muitas vezes superficial, guiado por ruído, validação social ou simplesmente pelo impulso de pertencer ao debate. No meio desse cenário, perdemos a oportunidade de reconhecer o que está sendo construído diante dos nossos olhos: um cinema brasileiro que, apesar de todas as dificuldades, continua avançando, ocupando espaço e pavimentando o caminho para que, no futuro, novas conquistas, novas indicações, inclusive uma estatueta, deixem de ser uma exceção.